"A reinvenção do uso do ayahuasca nos centros
urbanos" por Marcelo
Ayres Camurça
Dados sobre o livro:
Título da obra: A reinvenção do uso do
ayahuasca nos centros urbanos
Autora: Beatriz Caiuby Labate
Editora: Mercado das Letras/Fapesp
Número de páginas: 535
No prefácio de seu livro , os sociólogos da
religião G. Filoramo e C. Prandi salientam que na atualidade
se processa um movimento de multiplicação infinita
de estudos de religiões, com sua conseqüente especialização
e dilatação contínua. A temática
dos trabalhos da antropóloga Beatriz Caiuby Labate,
para o caso brasileiro, parecem confirmar a proposição
dos dois autores. No livro que ora resenhamos, "A reinvenção
do uso do ayahuasca nos centros urbanos" assim como no
anterior, "O uso ritual do ayashuasca" (que organiza
com Wladimir Sena Araújo), ela nos descortina, em cores
vivas, tanto uma realidade relativamente desconhecida que
emerge da sua pesquisa com estatuto de objeto, quanto o surgimento
de uma área acadêmica voltada para seu estudo:
o "campo ayahuasqueiro brasileiro", as "religiões
ayahuasqueiras" e a "rede ayahuasqueira". O
neologismo que a autora introduz - como uma categoria que
promete emplacar na nossa antropologia (da religião)
- diz respeito ao ayahuasca, palavra da língua quéchua
que designa uma beberagem, infusão do cipó Banisteriopsis
caapi e da folha Psychotria viridis, produzindo a substância
química dimetiltriptamina (DMT) que atua como um neurotransmissor
do sistema nervoso central, levando a visões, transes,
interpretados como uma experiência religiosa ou espiritualizada.
Planta psicoativa utilizada por curandeiros, xamãs
e "vegetalistas" em contexto indígena sul-americano,
apenas no Brasil, o seu uso propiciou o surgimento de religiões
de população nacional - o Santo Daime, a União
do Vegetal e a Barquinha - fruto da combinação
do chá "sagrado" com tradições
religiosas que se desenvolvem no país, a saber: o catolicismo
popular, as religiões afro-brasileiras, o espiritismo
kardecista e o esoterismo. No presente livro (originalmente
uma dissertação de mestrado em Antropologia
defendida na Unicamp e ganhadora do prêmio ANPOCS da
melhor dissertação do ano 2000), todavia, não
são as religiões ayahuaqueiras o foco central
da preocupação da autora (aliás, muito
bem resenhadas no livro anterior, em um elucidativo texto
de Labate, "As Religiões Ayahuasqueiras Brasileiras"
), mas os grupos e indivíduos "neo-ayahuasqueiros"
que, em contexto urbano, associam o consumo do chá
com uma postura reflexiva do self, individualização,
subjetividade, emocionalismo, re-inventando-o a partir de
combinações com técnicas de meditação
oriental, terapias corporais, psicoterapias, à maneira
pós- moderna e new age.
Concordando com Mauro Almeida, prefaciador do livro e orientador
da autora na sua dissertação, trata-se "da
reinvenção de uma reinvenção"
(p.13), já que as matrizes religiosas ayahuasqueiras
já são uma combinação sincrética
em solo brasileiro, em cima de outras religiões com
densidade popular, conforme descrito acima. E, indo um pouco
além, penso configurar-se uma cascata de reinvenções:
num primeiro plano, o uso da beberagem por indígenas
amazônicos; num segundo nível, sua apropriação
por curandeiros da América do Sul; num terceiro, a
criação de religiões brasileiras de consumo
do ayahuasqua que se espraiam para as cidades, incorporando
as camadas médias urbanas, com seus aportes, dentro
da cultura amazônica de seringueiros, e na sua forma
mais recente, a reinvenção do uso do chá
pelos neo-ayahuasqueiros que articulam a cosmologia cabocla
do Santo Daime com a terapêutica e outra práticas
new age e os chamados orientalismos.
Deste "núcleo duro" das religiões
"daimistas" desdobra-se uma rede difusa de usuários
do ayahuasca, através de experimentações
deste consumo ligado a terapias holísticas, ao neo-xamanismo,
ao teatro, à música, ao turismo psicodélico
e às práticas new age das mais diversas matizes.
Mediando o circuito que irrompe daquele ponto de partida,
a etnografia de Beatriz Labate nos apresenta nichos de referência
(ainda que, e muito por isso, ecléticos), como o grupo
do terapeuta holístico Janderson, que se organiza em
torno de rupturas e permanências em relação
às matrizes daimistas, atraindo, com isto, toda uma
gama de demandas "espiritualistas" da classe média
urbana, e sediando-as no seu Centro Terapêutico e no
ritual "Caminho do Coração". Isto
se dá através de workshops com xamanismo, psicoterapias
e meditações, à maneira dos Centros Holísticos
descritos por J. Guilherme Magnani nos seus estudos sobre
o neo-esoterismo nas cidades .
Ao analisar essa circulação ininterrupta de
desterritorializações e processos de re-significação
de rituais e cosmologias em novos contextos, Beatriz Labate
realiza uma sutil operação analítica
entre as esferas do tradicional e do moderno, pensando-os
em meio a tensões e interpenetrações.
Se, por um lado, ocorre uma dinâmica de diversificação
e fragmentação a partir das matrizes ayahuasqueiras,
estes desdobramentos se encontram ligados à narrativa
de referência destas religiões daimistas "tradicionais".
É uma constante nos discursos de Janderson e de seus
seguidores a prática de afastamentos e re-criações
entremeadas com reconhecimentos de uma filiação
à linhagem daimista. De um lado, a crítica ao
'cristianismo piegas" do Santo Daime (p. 120) ao "militarismo"
da fiscalização nos rituais, sua rigidez e conservadorismo
e, de outro, a permanência dos significados originais,
como o reconhecimento da essência divina do chá
e a busca de uma garantia da procedência "original"
desta bebida sagrada nos rituais autorizados das "religiões
daimistas" e nas figuras abalizadas dos seus "padrinhos",
"mestres", a quem é concedida uma deferência
"espiritual".
A faceta de atração e repulsão entre
tradicional e moderno a partir do Santo Daime, que configura
processos de identidade e distinção entre os
"religiosos ayahuasqueiros" e os neo-ayahuasqueiros,
já tinha sido observada num dos trabalhos seminais
sobre Nova Era no Brasil de autoria de Anthony D'Andrea. Disse
ele: "tende-se a confundir o discurso psicologizado de
segmentos elitizados frequentadores do Santo Daime (daimistas
ou não) com a 'doutrina' (o sistema) em si. O ponto
é que o Santo Daime só deve ser considerado
como ligado a processos New Age se for apropriado individualista
e reflexivamente pelos indivíduos. Nesse sentido, muitos
daimistas e os fundadores do movimento (Mestre Irineu e Mestre
Sebastião) definitivamente não tinham o objetivo
de constituir um sistema individualista-reflexivista"
.
Dentro desta dinâmica de polaridade e complementação,
a autora distingue dois domínios, o "campo ayahuasqueiro"
e a "rede ayahuasqueira", em constante fluxo de
comunicação, onde o primeiro pode ser compreendido
mais dentro da modalidade clássica da teoria bourdiana,
através de um centro autorizado de produção
de bens simbólicos e de seus agentes legitimados para
tal, na relação com seus consumidores; e o segundo
na feição de "rede" proveniente da
categoria rizoma de Deleuze e Guattari, onde qualquer ponto
pode ser conectado a qualquer outro, sem nenhum centro ou
ponto de origem (p. 307).
Isto não quer dizer que o modelo "tradicional"
também não se configure de uma forma eclética,
incorporando dimensões de outros contextos, ainda que
estas contribuições terminem acondicionadas
em um sistema estruturado, de "diversidade interna controlada"
(p. 113); nem, por outro lado, que os neo-ayahuasqueiros (como
Janderson e seu grupo), com sua dinâmica de intensa
plasticidade, onde, no limite, tudo é possível,
não possuam, também, "mecanismos de controle"
baseados em um "sistema" (provisório), com
seus rituais, hierarquias, que se auto-constrói e se
auto-fundamenta no próprio percurso do líder
e seus colaboradores pelas diversas realidades constituintes
deste "sistema" (religiões daimistas, terapias
new age e os orientalismos).
O transcurso de toda essa fluidez de itinerários
caleidoscópicos torna-se palpável ao leitor
pela precisão da descrição etnográfica
realizada pela autora: dos rituais, da cosmologia e das "histórias
de vida" dos membros do grupo o "Caminho do Coração".
Este é apresentado como um paradigma da "rede",
por funcionar como uma "estalagem" e "pouso"
para a itinerância "espiritual", ao mesmo
tempo que incorpora toda sua diversidade dentro de si.
Dentro do grupo de Janderson, o daime (chá), mesmo
resguardadas suas propriedades divinas, não é
visto com a centralidade devocional com que ele é apreciado
nas religiões daimistas. Aqui ele é encarado
como uma via, dentre outras, de auto-conhecimento e "iluminação".
É tomado como um "acelerador de processos"
(p. 367) da meditação, regressão, respiração
etc. Nesse sentido, sua utilização pode ser
combinada com
uma infinidade de técnicas "neo-esotéricas",
dentro de uma lógica que, segundo Leila Amaral, se
articula " a partir da incorporação de
elementos rituais, míticos e mágicos de diversas
tradições com a condição de se
quebrar as ortodoxias de seus códigos originais e inibir,
dessa forma, qualquer possibilidade de positivar uma determinada
direção cultural nas relações
e articulações que realizam."
Passo a citar, de uma forma mais livre, as diversas práticas,
técnicas e performances, que através da etnografia
de Labate, destacam-se no grupo de Janderson, seu Centro Holístico
e no "Caminho do Coração": A terapia
primal do psicólogo Artur Janov, o descondicionamento
do místico russo Gurdjieff, o rebirthing de Leonardo
Orr, técnicas de respiração holotrópica
de Stanislav Grof, terapia corporal bioenergética do
psiquiatra A. Lowen, meditação com discípulos
de Osho, a yoga, o Tantrismo, o jogo indiano Maha'Lila, o
baralho do Tarot, feitura de Mandalas, os Sat-Sangs, reuniões
de discípulos com o Mestre, oráculos musicais,
neoxamanismo, psicoterapias, trabalhos mediúnicos de
"banca" e de "mesa branca", diagnose e
orientação alimentar, trabalho com florais,
etc.
Ao aprofundar o seu entendimento sobre o que chamou de fenômeno
neo-ayahuasqueiro, interpretando-o dentro de um quadro da
cultura (pós-moderna) contemporânea, Beatriz
Labate prossegue, introduzindo uma posição ética
na sua problemática, que envolve uma tomada de posição
dos antropólogos e da Antropologia em defesa dos grupos
que estudam. (ainda que dentro do ethos da disciplina, na
defesa do relativismo e multiculturalismo). Sua análise,
a partir das teorias de Victor Turner e Mary Douglas, percebe
argutamente a condição liminar, marginal e fronteiriça
vivida pelos neo-ayahuasqueiros, (no que tange ao consumo
deste psicoativo ) entre a forma como se conseguiu obter sua
legalidade no país, ou seja, através do seu
uso em contexto religioso e o que extrapola a isto, o uso
terapêutico, artístico, comercial etc (p. 97).
As re-apropriações do chá, promovidas
por esses indivíduos e grupos, flexibilizando o uso
ritual/religioso próprio às religiões
daimistas, terminam por deixá-los numa posição
incômoda, tanto frente às religiões matrizes
quanto às racionalidades médicas e jurídicas,
e, por fim, a setores do próprio universo new age que
rejeitam o uso de psicoativos como forma de "despertar
a consciência". O desconforto que esses "não-lugares"
- expressão de Marc Augé - provocam nos "campos"
estabelecidos se explica na sua própria conformação,
que questiona a idéia de que conhecimentos, visões
de mundo, crenças e práticas têm de estar
subsumidas à domínios específicos.
Ao alcançar uma formulação mais precisa
sobre a natureza de seu objeto, a autora define sua posição,
propugnando que os new agers ayahuasqueiros não devem
ser anatemizados, pois argumenta, de um lado, que a definição
do que é uma religião, tradição
ou ritual não pode ser vista sob um crivo essencialista
(p. 98), tendo-se que levar em conta o "ponto de vista
nativo" das representações que fazem de
si mesmo; e, de outro, que existe nos neo-ayahuasqueiros uma
real preocupação de evitar um uso hedonista
da substância, cercando-a de regras e mecanismos de
controle, a partir de elaborações discursivas
e simbólicas baseadas em referenciais filosóficos
e terapêuticos que constituem suas "cosmologias"
e crenças. Ao fazer isso, Labate se insere numa perspectiva
"antiproibicionista" de antropólogos críticos
de um dualismo que naturaliza o seu próprio consumo
como lícito e legítimo, "(seja ele, o café,
o álcool, a heroína, a Cannabis ou o daime)"
(p. 100) e "demoniza" aquele que lhe parece exótico.
Defende que a forma mais eficaz de evitar práticas
com psicoativos que danifiquem a saúde (física
e psíquica) dos indivíduos não é
o controle externo e institucional por um aparato jurídico-policial,
mas um auto-controle exercido pelas próprias comunidades
que irrompa do seu próprio horizonte sócio-cultural-religioso
(p. 99).
Seguindo a boa postura do labor antropológico, ela
explicita o lugar de onde fala, defendendo ousadamente (a
partir de uma discussão dentro do estilo de nossa disciplina,
sobre os temas do distanciamento, do controle do bias etc.)
a possibilidade de êxito de uma "antropologia nativa"
(p. 30). Define-se, desta forma, como uma "antropóloga
ayahuasqueira", ligada ao fenômeno do ponto de
vista de dentro e de fora (p. 53). No entanto, como observa
Mauro Almeida no prefácio ao livro (a quem acompanho
nesta percepção), a despeito dela sublinhar
a relevância da experiência como única
forma possível de estabelecer "comunicação
com a alteridade de realidades metafísicas" (p.
17), a autora "quase nunca se dedica a 'recuperar a experiência'
dela mesma, conservando, em vez disso, um tom de objetividade
e de discreta simpatia com os ayahuasqueiros" (p. 17).
Faço apenas um reparo ao comentário. Diria eu,
que ela conserva uma assumida simpatia, todavia, não
à moda "nativa" pelo motivo de ter-se "fardado"
em uma das religiões ayahuasqueiras (p. 29), mas à
maneira antropológica, como alguém que aprendeu
(a partir da experiência "no campo") a compreender
a lógica interna deste "outro" (neo-ayahuasqeiro),
mesmo que este exerça foros de crítica e assuma
práticas heterodoxas em relação ao sistema
do qual ela declina adesão pessoal. Creio que ela se
insere no campo ayahuasqueiro vendo nele uma comunidade de
posições constituídas a partir de sentidos
(distintos e similares) atribuídos ao daime - aqui
plenamente dentro do métier antropológico -
mas, também, reconhecendo a magnitude de sentido que
emana do fenômeno, e, nesse particular, faz uma total
reserva quanto à sua experiência pessoal, preferindo
verter este reconhecimento para a compreensão antropológica
que "acredita na crença de seus nativos".
Por isso, suas percepções acerca de uma fenomenologia
da experiência do sagrado com o ayahuasca esclarecem-se
dentro da melhor tradição da teoria antropológica,
a partir de categorias como: eficácia simbólica,
identidade contrastiva, consenso social, hierarquia/individualismo,
ritos de passagem, liminaridade, performance, etc. E sua postura
de envolvimento (identidade) com a alteridade ayahuasqueira,
dentro do texto do livro, fica sempre circunscrita a "aspectos
éticos e políticos envolvidos no fazer antropológico"
(p. 53). Isto se dá quando desenvolve, de acordo com
esses pressupostos, experimentos extremamente criativos no
seu trabalho de campo, como a leitura do texto da tese junto
com os informantes, a incorporação nesse texto
de trechos de autoria dos próprios informantes (numa
prática semelhante à que Maurice Leenhardt introduzira
na sua pesquisa junto aos melanésios, depois revalorizada
pelo olhar pós-moderno de James Clifford) e a retribuição
do pesquisador ao grupo, ajudando-os, a partir de seus conhecimentos
acadêmicos, nas suas demandas jurídicas e econômicas
frente à sociedade (p. 53-60).
Desta maneira, pode-se concluir que, além do preciso
detalhamento etnográfico e do rigor acadêmico
que organizam seu texto, o livro de Beatriz Labate se insere
na perspectiva do que chamo uma "antropologia militante",
que se explicita numa dupla direção: primeiramente
no seu esforço por implantar uma nova área temática
de estudos na antropologia brasileira (isto se evidencia,
apesar de sua juventude, na publicação deste
livro, do anterior citado e de outro ainda, no prelo "O
uso ritual de plantas de poder", em parceria com Sandra
Goulart), e, também, pelo seu empenho, referenciado
na autoridade da pesquisa antropológica, em emprestar
uma legitimidade ao fenômeno ayahuasqueiro (seus agentes,
seus grupos, etc.) perante à sociedade e ao Estado
brasileiro.
A forma como se deixou representar na foto da contra-capa
do seu livro é sintomática da persona acadêmica
desta jovem "antropóloga ayahuasqueira",
já tão ativa na liderança de projetos
constitutivos dos estudos acerca do tema. Ela tem nas mãos
um exemplar do seu livro e ao fundo, não uma estante
de biblioteca com lombadas de livros, como muitos intelectuais
gostam de se mostrar, mas, sim, o verde exuberante de uma
mata.
Publicado em: http://www.antropologia.com.br/ - Edição
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