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Brincar de morrer ("Brink of Death") Roberta Salomone (salomone@no.com.br) no.com.br Longe das estrebarias e rumo às festas raves, uma inusitada droga começa a conquistar adeptos no Brasil. Conhecida há anos pela eficácia na anestesia de cavalos e de outros animais, a ketamina vem sendo usada por jovens e adolescentes, interessados apenas nas propriedades alucinógenas da substância. à venda em lojas veterinárias e facilmente adquirido sem a apresentaç ão de receita, o uso indevido do anestésico cresce sem controle. Apresentado na forma líquida, passa por uma transformação, vira pó e ganha o nome de Special K. "Na primeira vez, fiquei morrendo de medo porque me disseram que era muito perigoso, mas depois, vi que não era não", conta a produtora C. M., 28 anos, que desde então já usou a droga mais de dez vezes. Usada sem orientação médica, a ketamina pode causar distorções visuais, alucinações, paranóia, convulsões e até viciar. Criada em 1962 pelo americano Calvin Stevens, a substância tornou-se popular no final dos anos 90 na Europa e EUA com a difusão da música eletrônica. Ao lado do êxtase, foi durante muito tempo a droga mais consumida nas raves. Também conhecida como Vitamin K, Kit Kat, Keller, Super Acid e Super C, chegou a virar tema de músicas ("Lost in the K-Hole", dos Chemical Brothers e "Special K", do Placebo), e serviu de inspiração para uma cena do "Arquivo X" em que o agente Fox Mulder resolve recorrer à substância para recuperar a memória Ð propriedade que a ketamina não tem na vida real. Alguns livros sobre o tema também foram lançados. O principal deles, Ketamine: Dreams and realities, foi escrito pelo neozelandês Karl Jansen, que é considerado o maior especialista do mundo no assunto. "Os efeitos podem incluir uma sensação de fundir-se com outra pessoa ou grupo e uma sensação de ser um animal, planta ou um objeto inanimado", afirma o psiquiatra de 34 anos, por e-mail. Além desses efeitos, já foram relatados casos de distorções visuais, perda de noções de tempo e do controle motor. "Há quatro meses experimentei o K pela primeira vez. Fiquei completamente desorientado. Não conseguia nem andar. Depois que passou a onda, um amigo veio dizer que aquilo era de elefante", lembra o estudante M. P., 25 anos, que depois disso já usou as versões de ketamina para gato e cavalo. "Aí a onda foi bem mais tranqüila", garante o rapaz. Por causa de seu preço alto Ð cerca de R$ 200 Ð e da obrigatoriedade da receita médica, o anestésico para uso humano costuma ficar fora de cogitação. Produtos para eqüinos e suínos podem ser facilmente adquiridos e não saem por mais de R$ 30. No último dia 9, a reportagem de no. comprou, sem nenhuma dificuldade, um frasco de Dopalen na farmácia do Jóquei Clube do Brasil. "Um só? Faço por R$ 20 pra você", disse o balconista, que apesar da simpatia se recusou a dar a nota fiscal da venda do produto. No mercado desde o início do ano passado, o Dopalen tem pelo menos outros sete similares e é duas vezes mais concentrado do que o anestésico humano. Registrado pelo Ministério da Agricultura, tem autorização para ser vendido sem prescrição. "Os efeitos nos animais podem variar de uma espécie para outra, e como atuam direto no sistema nervoso central, tendem a causar sedação e relaxamento muscular", afirma Cristina Jorge, técnica assistente da divisão de saúde animal do laboratório Agribands do Brasil, que fabrica o remédio. Sensação semelhante relatada pela pedagoga G. F., 29 anos, que experimentou o Special K uma vez com os amigos. "Senti o meu corpo muito pesado. Sentei e não consegui sair do lugar. Parecia que estava com caneleiras de ginástica de cinco quilos em cada perna. Ainda bem que não durou mais do que meia hora", conta. Adquirido na forma líquida, a ketamina passa por um processo de modificação caseira antes de ser consumida. Colocado no forno microondas em potência baixa durante cinco segundos, vira pó. Em novo estado, a droga costuma ser aspirada, mas também pode ser fumada depois de misturada com tabaco ou maconha. "A primeira vez que cheirei foi numa rave na Inglaterra, há três anos. Aqui, também foi numa festa. Pensei que era cocaína e só fui me tocar que era ketamina quando comecei a me sentir mal", lembra a publicitária D. P., 23 anos. Segundo o psiquiatra Karl Jansen, doses altas de Special K podem causar alucinações, experiências extra-corporais, convulsões e até viciar, mas casos de overdose são raríssimos. "O uso de ketamina é seguro do ponto de vista físico já que não compromete a respiração ou altera os batimentos cardíacos como a heroína. Além disso, anestesistas costumam aplicar doses mais altas do que as que são normalmente usadas nos clubes noturnos", afirma o médico, que condena a combinação ketamina-álcool. "Pode ser fatal", diz. Na Europa, a mistura da substância com cocaína é bastante difundida e ganhou o nome de CK, em homenagem a Calvin Klein. "Em Londres, um amigo meu cheirou duas carreiras de CK e caiu no meio da pista. Teve três paradas respiratórias", lembra C. M. Outros relatos apresentados por Jansen em seu livro conectam o uso da substância a insônia, pesadelos, paranóia, depressão, ansiedade e distúrbios de personalidade. "Normalmente, as experiências contadas pelos pacientes depois da anestesia são ruins. Alguns, garantem até ter vistos monstros. Por causa disso, hoje, a ketamina só é usada em casos muito específicos, como quando os pacientes têm pressão baixa ou grande perda de sangue", diz o anestesista Arnoldo Bonin. O psiquiatra neozelandês vai mais longe e afirma ter comprovado que a ketamina pode induzir o chamado "estado de quase-morte". "é a experiência que possibilita as pessoas acharem que morreram e que podem se comunicar com Deus", explica. Um dos usuário famosos de Special K, o DJ Fatboy Slim descreve sensação parecida num dos milhares de sites dedicados à droga na Internet. "Use a quantidade certa e é incrível. Use errado e você se sente como se estivesse morrendo", conta. Copyright © 2000 no.com.br |